O Brasil recebeu seu primeiro computador em operação em 1957, um Univac 120, importado, usado pela Prefeitura de São Paulo para processar dados do serviço de água e esgoto. Onze anos depois do surgimento do ENIAC nos Estados Unidos, o país ainda dependia inteiramente de tecnologia estrangeira. A pergunta que passaria a mobilizar universidades, Forças Armadas e, mais tarde, o setor privado nas décadas seguintes era simples de formular e difícil de responder: como reduzir essa dependência?
A resposta começou a ser construída nos anos 1960, em bancos universitários, e é uma história que ainda diz muito sobre por que soberania tecnológica continua sendo pauta estratégica para o Brasil hoje.
Da sala de aula para a Marinha
Em 1961, um grupo de estudantes do Instituto Tecnológico de Aeronáutica desenvolveu o Zezinho, considerado o primeiro computador inteiramente projetado e construído em território nacional. O projeto teve vida curta, mas plantou uma semente: a ideia de que o país tinha capacidade técnica para desenvolver, não apenas importar, tecnologia computacional.
O impulso decisivo, porém, veio de uma motivação estratégica. Um capitão da Marinha brasileira, responsável por eletrônica de frota, passou a defender que o país precisava de uma indústria eletrônica própria, sob risco de os navios de guerra recém adquiridos se tornarem inúteis sem sistemas nacionais de suporte. Em plena Guerra Fria, dependência de hardware estrangeiro era tratada como vulnerabilidade de segurança nacional, não como questão técnica secundária.
Esse argumento convenceu o BNDE (hoje BNDES) a financiar pesquisa em universidades, gerando uma disputa entre Unicamp e USP para construir o primeiro computador nacional funcional. A USP venceu, com o Patinho Feio, que entrou em operação em 1972.
Nasce a Cobra, e nasce uma indústria
A partir do Patinho Feio, o governo estruturou a criação da Cobra (Computadores Brasileiros), fundada em 1974 como joint venture entre Estado, empresa nacional e uma fabricante britânica. A companhia se tornaria a primeira do país a fabricar computadores com tecnologia genuinamente brasileira, atendendo primeiro a Marinha e, na sequência, clientes como Petrobras, hospitais, ministérios e o Exército.
Foi o início de uma indústria nacional de hardware com escala real, impulsionada, desde a origem, pela combinação entre demanda de defesa, incentivo estatal e ambição de autonomia tecnológica.
Reserva de mercado, abertura e reposicionamento
Os anos 1980 marcaram o auge dessa indústria protegida por lei de reserva de mercado. O outro lado da proteção, porém, foi o isolamento: dificuldade de importar componentes encareceu e defasou o produto nacional frente ao que se produzia no exterior. Com a abertura comercial de 1992, boa parte dessa estrutura industrial não resistiu, e empresas nacionais fecharam ou se reposicionaram para prestação de serviços.
O aprendizado histórico é claro: soberania tecnológica sustentável não nasce de protecionismo isolado, mas de competitividade real, capacidade de produzir hardware nacional que resista à concorrência aberta, com qualidade e suporte à altura do que o mercado internacional oferece.
O que essa história tem a ver com o presente
Mais de meio século depois do Patinho Feio, a lógica que motivou aquela primeira geração de engenheiros brasileiros continua atual: reduzir dependência de fornecedores estrangeiros em setores estratégicos (defesa, administração pública, infraestrutura crítica) não é escolha ideológica, é decisão de segurança e continuidade operacional.
A Daten opera hoje nesse mesmo território estratégico que a Cobra ajudou a abrir há 50 anos: fabricação de hardware para clientes corporativos, órgãos públicos e o setor de defesa, com a diferença de operar em um mercado aberto e competitivo, não sob reserva de mercado, mas com solidez suficiente para sustentar 25 anos de atuação contínua no país.
A trajetória contada aqui não é apenas curiosidade histórica. É lembrete de que a pergunta feita pela Marinha brasileira nos anos 1960: "quem garante a tecnologia que sustenta operações críticas do país?" segue sem resposta definitiva, e segue exigindo empresas nacionais dispostas a ocupar esse espaço com competência técnica e compromisso de longo prazo.
Conclusão
Da importação forçada de um Univac à fundação da Cobra, a história da informática brasileira é, no fundo, a história de uma pergunta que atravessa décadas: como garantir tecnologia própria em setores que não podem depender de terceiros. A Daten segue essa trajetória construindo, hoje, a mesma resposta que motivou os pioneiros da computação nacional: hardware confiável, produzido e suportado dentro do país, para quem não pode se dar ao luxo de depender de fornecedores distantes.

