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Biometria

Da urna 386SX à biometria: 30 anos da tecnologia eleitoral brasileira

Em 2026, a urna eletrônica brasileira completa três décadas de evolução. Do primeiro modelo, equipado com processador Intel 386SX e 2 MB de memória, à arquitetura atual, com recursos biométricos, criptografia e mecanismos de auditoria, sua trajetória revela como uma tecnologia de Estado pode evoluir continuamente para atender a novos desafios de segurança, acessibilidade e escala.

Em 1995, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) iniciou o desenvolvimento do projeto que daria origem à urna eletrônica brasileira. O equipamento foi utilizado pela primeira vez nas Eleições Municipais de 1996, quando 57 municípios (entre eles 26 capitais e outras cidades com mais de 200 mil eleitores) passaram a utilizar a votação eletrônica. A experiência alcançou aproximadamente um terço do eleitorado brasileiro da época.

A primeira eleição completamente informatizada, porém, aconteceria apenas em 2000. Naquele ano, a votação eletrônica chegou a todos os municípios brasileiros, consolidando uma das maiores experiências de informatização do processo eleitoral já realizadas.

O projeto nasceu com o nome de Coletor Eletrônico de Votos (CEV). Para desenvolver as especificações do equipamento, o TSE reuniu especialistas da Justiça Eleitoral, das Forças Armadas e de órgãos ligados à ciência, tecnologia e comunicações. A comissão técnica formada em 1995 contou com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e de outras instituições, incluindo o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

A proposta tinha um objetivo direto: automatizar a coleta e a apuração dos votos, reduzir a intervenção humana e criar um equipamento resistente, simples de operar e adequado à realidade do país. Entre as definições iniciais estavam o uso de números para identificar candidatas e candidatos e um teclado disposto de forma semelhante ao de um telefone. Desde a primeira geração, a urna também incorporava recursos de acessibilidade, como a identificação dos números em Braille.

Da primeira urna à evolução da segurança

A primeira geração parecia modesta diante dos padrões tecnológicos atuais, mas já reunia decisões de engenharia que seriam aperfeiçoadas nas décadas seguintes.

A UE96 utilizava um processador Intel 386SX de 40 MHz, 2 MB de memória RAM e dois disquetes de 1,44 MB como mídia de armazenamento. O teclado do eleitor era do tipo membrana, semelhante ao de um telefone, e já trazia sinalização em Braille.

A partir daí, cada nova geração incorporou mudanças específicas de hardware, software, segurança e acessibilidade.

UE98: foi a primeira a exibir na tela a foto de todas as candidatas e de todos os candidatos. Também marcou um avanço nos procedimentos de fiscalização dos dados inseridos nas urnas, permitindo às entidades responsáveis conferir sua exatidão e autenticidade.

UE2000: incorporou saída de áudio para fones de ouvido e resposta tátil e sonora no teclado do eleitor, ampliando os recursos de acessibilidade. Foi também a geração utilizada quando a votação eletrônica passou a alcançar todos os municípios brasileiros.

UE2002: trouxe novas possibilidades de fiscalização e acompanhou a implantação da Cerimônia de Lacração dos Sistemas Eleitorais, etapa destinada a garantir a integridade dos sistemas utilizados no pleito.

UE2004: passou a utilizar o Registro Digital do Voto (RDV), no qual os votos são armazenados de forma embaralhada e associados a mecanismos de assinatura digital, ampliando as possibilidades de verificação do sistema.

UE2006: incorporou leitor biométrico ao terminal do mesário, abrindo caminho para o uso da identificação biométrica no processo eleitoral.

UE2008: incorporou o Uenux, sistema operacional baseado em Linux utilizado pela Justiça Eleitoral. No mesmo período, foram realizados os primeiros testes-piloto de identificação biométrica em três municípios: São João Batista, em Santa Catarina; Fátima do Sul, em Mato Grosso do Sul; e Colorado do Oeste, em Rondônia.

UE2009: introduziu um dispositivo dedicado à segurança e à criptografia dos dados, estabelecendo a base da arquitetura que o TSE posteriormente denomina T-DRE, ou Trusted Direct Recording Electronic. O modelo também substituiu os disquetes utilizados para registro de resultados por memórias USB.

UE2011: recebeu melhorias no sistema de leitura biométrica.

UE2013: trouxe aprimoramentos no Uenux, inclusive no tratamento de operações criptográficas.

UE2015: passou a incorporar QR Codes aos Boletins de Urna e marcou o lançamento do aplicativo Boletim na Mão, permitindo a leitura e conferência dos resultados registrados no equipamento.

UE2020: trouxe um salto de capacidade de processamento em relação à geração anterior, além de tela colorida e tela sensível ao toque no terminal do mesário. O modelo também recebeu certificação ICP-Brasil para o perímetro criptográfico do hardware de segurança, com avaliação realizada por laboratório credenciado pelo Inmetro.

UE2022: é a geração mais recente da urna eletrônica. Tecnicamente, é muito semelhante à UE2020, com alterações principalmente de design e construção. Em 2026, as eleições utilizam urnas dos modelos UE2022, UE2020, UE2015 e UE2013.

Biometria: de piloto a parte do processo eleitoral

A identificação biométrica começou como um teste-piloto em 2008. Naquele primeiro experimento, eleitores de São João Batista, Fátima do Sul e Colorado do Oeste tiveram sua identidade confirmada por meio da impressão digital antes da votação.

A tecnologia foi ampliada gradualmente ao longo das eleições seguintes. Em 2010, mais de 1,1 milhão de eleitores de 60 municípios já estavam aptos a utilizar a identificação biométrica. Em 2012, esse número ultrapassava 8 milhões de eleitores em 299 municípios.

Hoje, a biometria faz parte da etapa de habilitação do eleitor na própria urna. O procedimento, no entanto, não elimina todas as verificações realizadas pela mesa eleitoral: a identificação documental e a conferência dos dados continuam integrando o processo. Quando disponível, a leitura da impressão digital acrescenta uma camada de confirmação da identidade do eleitor.

A evolução também trouxe novos recursos de acessibilidade, incluindo sintetização de voz e outros mecanismos destinados a ampliar a autonomia de eleitores com diferentes necessidades.

T-DRE: uma arquitetura brasileira de segurança

A partir da UE2009, a Justiça Eleitoral passou a utilizar um dispositivo dedicado à segurança e à criptografia, associado à verificação da autenticidade dos sistemas executados pela urna.

O TSE denomina essa arquitetura de T-DRE (Trusted Direct Recording Electronic). O conceito foi apresentado em trabalho científico publicado em 2010 e está relacionado à utilização de mecanismos de hardware e software destinados a estabelecer uma cadeia de confiança para a execução dos sistemas eleitorais.

O termo T-DRE, nesse contexto, deve ser entendido como uma denominação da arquitetura de segurança desenvolvida para o sistema brasileiro, e não como uma certificação internacional concedida por um organismo externo.

Na prática, a segurança do sistema eleitoral brasileiro é construída em camadas. Ela envolve hardware dedicado, criptografia, assinaturas digitais, mecanismos de autenticação, controle das mídias, procedimentos de lacração dos sistemas e diferentes etapas de auditoria e fiscalização.

Um sistema sob escrutínio constante

Nenhuma infraestrutura tecnológica crítica está livre de testes, pesquisas ou questionamentos. A urna eletrônica também passou por esse processo ao longo de sua evolução.

O primeiro Teste Público de Segurança (TPS) foi realizado de 10 a 13 de novembro de 2009. Na ocasião, pesquisadores e especialistas externos receberam condições controladas para executar planos de teste destinados a identificar possíveis vulnerabilidades nos sistemas eleitorais. O equipamento submetido à primeira edição foi a urna do modelo UE2008.

Desde então, o TPS passou a fazer parte do processo de aperfeiçoamento dos sistemas eleitorais. Houve novas edições em 2012, 2016, 2017, 2019, 2021, 2023 e 2025. A oitava edição, realizada em 2025, serviu de preparação para as Eleições Gerais de 2026.

A lógica do teste não é provar que nenhuma vulnerabilidade pode existir, mas permitir que especialistas tentem identificá-las em condições controladas antes do pleito. Em 2025, por exemplo, foram identificados três achados em 29 planos de ataque executados. Segundo os relatórios divulgados pelo TSE, os achados foram tratados e não comprometeram o sigilo ou a integridade dos votos nas eleições de 2026.

Ao mesmo tempo, existe literatura acadêmica independente que já identificou vulnerabilidades em versões anteriores do sistema. Um estudo publicado em 2019 na revista Computers & Security, com base no TPS de 2017, analisou vulnerabilidades relacionadas, entre outros pontos, ao armazenamento de chaves criptográficas e à verificação da integridade de componentes de software.

Identificar uma vulnerabilidade em um ambiente de teste, porém, é diferente de demonstrar que uma fraude ocorreu em uma eleição. O próprio desenho do TPS parte da premissa de que sistemas críticos devem ser submetidos a tentativas controladas de ataque para que falhas possam ser corrigidas e os mecanismos de proteção aperfeiçoados.

Mais transparência e auditoria

As discussões sobre transparência também mudaram ao longo dos anos.

Em períodos anteriores, o acesso de pesquisadores externos aos sistemas eleitorais era mais restrito. Atualmente, as entidades fiscalizadoras habilitadas podem inspecionar os códigos-fonte dos sistemas eleitorais com antecedência de 12 meses em relação ao primeiro turno, dentro de um ambiente controlado pela Justiça Eleitoral.

Nas Eleições Gerais de 2026, os códigos-fonte ficaram disponíveis para inspeção a partir de 2 de outubro de 2025, dentro do chamado Ciclo de Transparência.

Essa inspeção é apenas uma das etapas de fiscalização. O processo eleitoral inclui ainda procedimentos de preparação, assinatura digital e lacração dos sistemas, testes de autenticidade e integridade, acompanhamento da geração das mídias e disponibilização dos Boletins de Urna e de outros arquivos para conferência após a votação.

O sistema também passou por uma auditoria externa conduzida pelo Tribunal de Contas da União. Entre 2021 e 2023, o TCU examinou diferentes etapas da votação eletrônica, incluindo aspectos relacionados à segurança, transparência, confiabilidade e auditabilidade, e concluiu que o sistema era plenamente auditável dentro do arranjo normativo então vigente, além de apontar oportunidades de aperfeiçoamento.

Uma tecnologia de Estado, desenvolvida e produzida no Brasil

Ao longo de três décadas, um aspecto permaneceu constante: a urna eletrônica é um projeto do Tribunal Superior Eleitoral. As empresas que participam de sua produção não definem livremente o produto; elas são contratadas por meio de licitação para fabricar os equipamentos de acordo com especificações técnicas estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

Desde 1996, quatro empresas participaram da produção das urnas utilizadas pelo país: Unisys Brasil, Diebold/Diebold Procomp, Procomp e Positivo Tecnologia. Ao longo de 30 anos, foram produzidos mais de 1,48 milhão de equipamentos, distribuídos em 14 modelos.

Isso permite falar em uma tecnologia eleitoral brasileira, mas é importante fazer uma distinção. Brasileira não significa que todos os componentes eletrônicos sejam fabricados no território nacional.

As urnas das gerações mais recentes utilizam componentes e semicondutores produzidos por fornecedores internacionais. Segundo o próprio TSE, as urnas UE2020 e UE2022 utilizam, por exemplo, chips produzidos por empresas de Taiwan. O controle do projeto, das especificações, da arquitetura de segurança, dos sistemas eleitorais e dos procedimentos de configuração e produção permanece sob responsabilidade da Justiça Eleitoral.

É nesse sentido que a urna pode ser entendida como uma infraestrutura tecnológica estratégica: não pela fabricação doméstica de cada componente, mas pela capacidade do Estado brasileiro de projetar, especificar, controlar, testar, atualizar e operar sua própria infraestrutura eleitoral crítica.

30 anos de evolução

Em 2026, a urna eletrônica brasileira completa 30 anos desde sua primeira utilização nas eleições de 1996.

Nesse período, o equipamento passou de uma máquina baseada em processador Intel 386SX e 2 MB de memória para uma infraestrutura integrada a recursos biométricos, mecanismos criptográficos, dispositivos dedicados de segurança, sistemas operacionais próprios, QR Codes nos Boletins de Urna e múltiplas etapas de auditoria e fiscalização.

Mais do que uma sucessão de modelos, essa trajetória representa uma evolução contínua de engenharia e governança tecnológica.

A experiência brasileira mostra que a confiabilidade de uma infraestrutura crítica não nasce de um único lançamento. Ela é construída ao longo do tempo, por meio de atualização tecnológica, testes, fiscalização, mecanismos de verificação e capacidade institucional para responder a novos desafios.

Três décadas depois, a história da urna eletrônica brasileira é também a história de uma tecnologia de Estado que evoluiu geração após geração para acompanhar as exigências de um país de dimensões continentais e de um processo eleitoral de enorme escala.

E talvez esteja aí seu aspecto mais relevante: tecnologias críticas se tornam estratégicas não apenas quando são inovadoras, mas quando um país desenvolve conhecimento, capacidade técnica e governança suficientes para mantê-las sob seu próprio controle ao longo do tempo.

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