
Em entrevista recente à ONU News, Shafika Isaacs, chefe da seção de Tecnologia e Inteligência Artificial na Educação da Unesco, resumiu em uma frase o posicionamento da entidade sobre o avanço da IA nas escolas: a tecnologia não pode, e não deve, substituir professores. Segundo ela, a missão da Unesco não é promover a IA por si só, mas garantir que ela reforce a educação como um bem público, não o contrário.
A declaração chega em um momento simbólico. Depois de anos vendo a IA generativa se espalhar mais rápido do que qualquer política educacional conseguiu acompanhar, a Unesco identifica um problema estrutural: levantamento global com mais de 450 escolas e universidades mostrou que menos de 10% delas têm políticas institucionais formais sobre o uso de IA generativa, a maioria por falta de regulamentação nacional, não por escolha própria. Ou seja, a tecnologia já está dentro da sala de aula; a régua para usá-la com responsabilidade, na maior parte do mundo, ainda não.
Nem tecnofobia, nem entusiasmo ingênuo
Vale destacar: a posição da Unesco não é de rejeição à tecnologia. A entidade reconhece benefícios concretos da IA na educação, como ferramenta de estímulo ao pensamento crítico, apoio à inclusão linguística e cognitiva (incluindo línguas indígenas e alunos neurodivergentes) e até como sistema de alerta precoce para identificar estudantes em risco de evasão escolar.
O que a Unesco defende, na prática, é um meio-termo pouco confortável para quem prefere respostas simples: usar a IA como ferramenta de apoio pedagógico, sem transferir a ela decisões que dependem de julgamento humano, empatia e contexto, papéis que continuam sendo do professor, não do algoritmo.
Um alerta que já tem base regulatória
Essa posição não nasceu do nada. Desde 2021, a Unesco vem publicando uma sequência de orientações sobre o tema: um guia inicial para formuladores de políticas, uma orientação específica sobre IA generativa em 2023 (com sete passos recomendados para governos regularem o uso na educação) e, mais recentemente, o "Marco de Competências em IA para Professores" (lançado globalmente em 2024 e publicado no Brasil em 2025), que trata a autonomia do professor como "elemento inegociável" mesmo em um cenário de algoritmos onipresentes.
O documento parte de um princípio direto: a IA deve servir à educação, não o contrário. E reconhece que, sem capacitação adequada, dificilmente um professor terá condição de fazer escolhas pedagógicas conscientes diante de ferramentas que evoluem mais rápido do que qualquer currículo de formação docente.
O Brasil já tem um case reconhecido pela própria Unesco
Nesse contexto, vale um destaque nacional: a Unesco reconheceu o Piauí como iniciativa pioneira no Brasil por tornar obrigatório o ensino de IA em escola pública. O reconhecimento evidencia um ponto que especialistas locais já vinham apontando: o principal desafio dessas políticas não é a tecnologia em si, mas a formação de professores (a maioria ainda não formada especificamente em IA) e a garantia de infraestrutura básica: dispositivos adequados, conectividade e políticas de proteção de dados dos estudantes.
As duas camadas do mesmo debate
Esse posicionamento da Unesco se conecta diretamente com outro dado que já comentamos por aqui: a pesquisa TIC Educação (Cetic.br) mostrou que 8 em cada 10 escolas brasileiras já debatem formalmente o impacto do uso de telas na saúde mental dos alunos. Juntos, os dois levantamentos desenham um quadro mais completo do momento atual da tecnologia na educação brasileira, não é só sobre quanto tempo de tela é saudável, mas também sobre até onde a inteligência artificial pode avançar sem comprometer o papel insubstituível do professor.
O que isso significa para quem gerencia tecnologia educacional
Para secretarias de educação, redes de ensino e gestores de infraestrutura escolar, o alerta da Unesco reforça uma prioridade prática: adotar IA na escola exige política de uso, formação docente e infraestrutura adequada andando juntas, não apenas equipar a escola com dispositivos e esperar que o bom uso aconteça por conta própria.
Conclusão
A Unesco não está pedindo para a escola recuar da tecnologia, está pedindo para que ela avance com critério. Entre a tentação de adotar IA por pressão de mercado e o risco de deixar o professor de lado nesse processo, o caminho que a própria entidade desenha é claro: tecnologia que apoia, formação que sustenta, e o professor no centro da decisão pedagógica, não na periferia dela.

