
Por anos, a discussão sobre tecnologia na educação girou quase exclusivamente em torno de acesso: quantas escolas têm internet, quantos alunos têm dispositivo, quantos professores usam ferramentas digitais em sala. A edição 2025 da pesquisa TIC Educação, do Cetic.br | NIC.br, mostra que essa conversa amadureceu. Divulgado em agosto de 2026, o levantamento revela que 8 em cada 10 escolas brasileiras já debatem formalmente o impacto do uso de telas na saúde mental dos estudantes, um sinal de que a pauta deixou de ser preocupação isolada de pais ou especialistas e passou a fazer parte da agenda institucional das próprias instituições de ensino.
A pesquisa, realizada desde 2010 e considerada a principal referência nacional sobre tecnologia na educação básica, ouviu em sua 16ª edição alunos, professores, coordenadores e gestores de mais de 2.400 escolas em todo o país, incluindo áreas rurais e urbanas.
De "quanto acesso" para "que tipo de uso"
O dado indica uma virada de maturidade importante no setor educacional. Depois de mais de uma década ampliando infraestrutura digital nas escolas (computadores, internet, plataformas de ensino), a pergunta central deixou de ser apenas "os alunos têm acesso à tecnologia?" e passou a incluir "esse acesso está sendo usado de forma saudável?".
Isso muda a forma como gestores escolares e redes de ensino precisam planejar tecnologia daqui para frente. Não basta mais equipar a escola com dispositivos e conectividade, é preciso também estruturar políticas de uso, limites de tempo de tela em atividades pedagógicas e, cada vez mais, ferramentas que deem visibilidade sobre como a tecnologia está sendo efetivamente utilizada dentro do ambiente escolar.
O que está por trás dessa mudança de agenda
Esse movimento não surge isolado. Ele acompanha um conjunto de sinais que já vinham se acumulando no debate educacional em 2026:
- Ampliação da discussão sobre o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que trouxe novas responsabilidades para plataformas digitais em relação à proteção de crianças e adolescentes
- Crescimento da preocupação com privacidade de dados de estudantes no ambiente digital, à luz da LGPD
- Eventos do setor, como o Bett Brasil, incorporando cada vez mais painéis sobre uso consciente da tecnologia, e não apenas sobre adoção de novas ferramentas
O resultado é um cenário em que a escola passa a ser cobrada (por famílias, por redes de ensino e por si mesma) a ter uma postura ativa sobre o tema, em vez de tratar o uso de telas apenas como consequência inevitável da digitalização.
O que isso significa na prática para gestores de tecnologia educacional
Para secretarias de educação, redes de ensino e gestores escolares responsáveis por infraestrutura de TI, esse dado sugere algumas frentes concretas de atenção:
- Políticas de uso claras, não apenas regras informais, definir quando e como dispositivos são usados em sala, com critérios pedagógicos explícitos
- Infraestrutura que permita gestão e monitoramento, dando à escola visibilidade real sobre o uso de equipamentos, sem depender apenas de observação manual de professores
- Formação de professores e coordenadores para conduzir esse debate com famílias e alunos com base em dados, não apenas em percepção subjetiva
- Escolha de hardware e sistemas adequados à faixa etária, considerando que uma política de uso saudável começa também no tipo de equipamento disponibilizado, não apenas nas regras de utilização
Conclusão
O dado da TIC Educação 2025 confirma que a tecnologia na escola brasileira entrou em uma nova fase, uma em que ampliar acesso já não é suficiente, e onde qualidade de uso passa a ser tão relevante quanto quantidade de dispositivos. Para gestores educacionais, isso significa tratar infraestrutura de TI e política de uso como parte da mesma estratégia, e não como decisões separadas, um desafio que tende a ganhar ainda mais peso nos próximos ciclos da própria pesquisa Cetic.br.

